Confesso que ver uma abelha processando a humanidade por explorar sua espécie e roubar sua produção de mel (!) não estava muito nos meus planos quando decidi assistir o simpático filme Bee movie, nova animação da Dreamworks (que só agora fui assistir). Quase sempre a experiência de ir ao cinema com um monte de monstrinhos, digo, criancinhas, ao meu redor gritando, chorando ou rindo sem parar, é bastante constrangedora, por isso comecei a aderir ao cinema em casa, e bem escondido. Mas, firme em meus princípios, insisto em dizer: animações são feitas por adultos para adultos, não para crianças! acabo me sentindo um público não-alvo renegado (é como aqueles brindes do Mac Donnalds: se eu achar legal o boneco de personagem de animação que lançaram, o jeito é me segurar, e morrer de inveja do priminho pequeno que pôde comprar o tal do lanche feliz - ora, quanto preconceito! eu bem que não acharia mau um papa-léguas enfeitando meu quarto).Após tanto conflito, a produção de mel fica estagnada, já que a humanidade é obrigada a devolver às colméias todo o mel fabricado, inclusive aqueles colocados nas prateleiras dos supermercados. O que no início parecia um sonho, vira pesadelo. O ócio das abelhas acaba por deixá-las deprimidas, desmotivadas, afinal, o sentido de sua existência justificava-se pelo trabalho árduo e disciplina (pausa de sobriedade: uma abelinha entediada joga paciência no computador, e as cartinhas são todas em formato hexagonal). Além do mais, Barry percebe que todas as árvores dos parques e florestas começam a secar e morrer, já que não há mais polinização. Ao perceber a subversão do equilíbrio da natureza e, no intuito de consertar os efeitos de seu momento de epifania, a super-abelha consegue um desfecho feliz para o destino de suas companheiras, fazendo com que a polinizadação das flores volte a acontecer - um final feliz para a humanidade e para as abelhinhas workaholics.
Mais certo, agora, sobre seu verdadeiro destino, só resta uma opção ao antes perdido e desolado Barry: juntar-se à amada (humana) e abrir uma acessoria jurídica para animais dentro de sua floricultura. Fruto de uma visão além do óbvio, nasce uma abelha advogada.
Dentro de um universo todo jurídico, de reflexões sobre aquilo que é justo e o que não é, a animação tem um desfecho curioso, que demonstra as inúmeras necessidades e insatisfações das pessoas (ou insetos) no que diz respeito às condições de trabalho, daquilo que deve ser mudado para que se mantenha a auto-estima e a saúde emocional no desempenho de funções durante uma vida inteira. A última cena mostra, com muito humor, a ajuda da bee-lawyer em seu escritório a uma vaca triste:
- "Leite, creme, queijo, tudo eu. E não vejo uma moeda! Sabe, às vezes eu me sinto um pedaço de carne."
Ao ter de sair, Barry deixa sua cliente aos cuidados de seu sócio (um mosquito que conheceu no pára-brisas de um carro), e a vaca, preocupada, pergunta: você também é advogado? Sem delongas, o mosquito responde:
- "Olha, sempre fui um parasita chupa-sangue... só me faltava a maleta!".
Certo, certo, sem comentários (e muitos, muitos risos).
Paralelo surreal com a realidade:
- O final da abelha é a advocacia. Pessoas que querem mudar o mundo viram juristas?
- O princípio do contraditório foi muito bem demonstrado no decorrer das audiências. Fatos foram bem colocados, pelas duas partes, e ambas foram ouvidas no momento certo. Mas a abelha teve de recorrer a um último requisito para convencer a juíza: o fundamento jurídico, crucial para que se ganhe uma ação. Foi quando lembrou-se de que abelhas não fumam, mas estavam sendo forçadamente viciadas à uma máquina de fumo (trata-se do fumegador, utilizado pelos apicultores no momento da inspeção das abelhas; a fumaça as deixa mais "calmas" e a possibilidade de ferroarem é menor). Ponto para a abelha, e sentença favorável a sua classe.
- É uma pena que as árvores não possam estar em juízo, afinal, não faltaria a elas interesse de agir, possibilidade jurídica do pedido e legitimidade para propor a ação contra a humanidade.
- Minha visão sobre as abelhas mudou muito depois de assistir esse filme, mas espero não chegar ao ponto de tentar conversar com elas :). E nem contar com a possibilidade de, um dia, atuar num processo no qual a parte contrária sejam insetos tentando dizer a nós, humanos, o quanto somos estúpidos.




























